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Relatos de Álvares Rocha

Nesta página estão alguns textos do meu outro blog “Cachaça na Xícara”, criado para alocar os meus textos mais desbocados e soltos. Para tanto, resolvi deixá-lo aos cuidados de Álvares Rocha, personagem central do meu primeiro romance “Correndo Atrás” publicado pela Editora Multifoco, Rio de Janeiro, no ano de 2009. 

segunda-feira, 11 de agosto de 2014


CRÔNICA DE UMA TARDE CHUVOSA




Então ele foi atender o telefonema.  Era a mulher que ele estava já fazia alguns anos. Se ele a amava? Na verdade era difícil acreditar. O que ele esperava dela?  Alguma coisa que ela demonstrasse que lhe fazia falta. Daniel não sabia onde ele estava. E ele queria que alguma boceta com cérebro lhe encontrasse. Ela jamais saberia onde ele estava... Ele estava perdido onde ele não saberia. Os recônditos da alma é algo difícil de sondar. Pois não há mar, não há desertos infinitos e universos idem que nos levem a total compreensão da personalidade humana. 
Uma boceta com cérebro nos faz repensar todo um projeto de vida.  Daniel havia conhecido umas bocetas dessas. Onde ir em situações semelhantes? Um namoro malfadado jamais dará conta disso. Para onde ir e o que fazer? O desespero se instala...
Nem a máquina de escrever com sua presença ilustre ao abrir da porta jamais resumirá o outono desses dias sem sol.
Beethoven com seus dó, ré, mi, fá, só, lá, si jamais reproduzirá a sinfonia de todo um dia como esse...
- Álvares as coisas andam meio fora do lugar – falou-me Daniel com um tom zombeteiro.
- Elas costumam andar sempre assim... – respondi muito calmamente.
- Tu não bebeste todo o vinho, né?
- Ainda tem aqui.
- Acho que vamos precisar de um pouco mais.
- É fato.

E assim avançamos pelas ruas daquele município onde agora eu estava morando. Zona Metropolitana da cidade de Belém. Foda-se! Tudo parecia tão e infinitamente distante do nosso bairro de origem, o Jurunas. Tudo aquilo parecia uma prolongada piada de muito mal gosto. Mas precisávamos tomar umas pela ordem social vigente, pelas crianças que morriam de fome na África, pelo Messias aguardado pelos cristões e judeus, por toda merda que está no início do reto aguardando para se liberta fossa abaixo! A vida era muito gozada. Vivia fodendo e gozando de tudo e de todos. Queria ser uma foda menos fodida às vezes. Mas sempre a maldita acabava gozando de mim. O que Daniel estava querendo naquela noite? Bancar o comedor e inflar mais e mais seu maldito superego? Haveria bebida? Haveria saída? As músicas em espanhol continuavam a tocar eternamente...

(Walter Rodrigues)

SÁBADO, 19 DE FEVEREIRO DE 2011


SHOW DE SEXO AO VIVO NO VER-O-PESO



Isaías acatou muito bem a ideia de verificarmos o que rolava dentro daquele lugar que tanto excitava nossa imaginação: um puteiro bem no centro do Ver-o-Peso. Tínhamos acabado de fazer 18 anos e vivíamos pensando e falando em sexo. Dúvidas mil, certamente. Não havia punheta que desse jeito.  Eu já tinha tido minha primeira relação sexual, mas meu amigo ainda sonhava com o sabor de uma boceta.
Já havíamos caminhado quase uma quadra quando resolvemos voltar e nos informar sobre o que rolava ali dentro com o segurança.
- Mas tu falas então, Álvares – condicionou Isaías.
- Deixa comigo – respondi.
A Boate B Vermelho estava em uma de suas melhores fases naquela época.  Não havia ninguém em Belém que nunca tivesse ouvido o nome daquele lugar. Já fazia parte da cultura marginal da cidade.
- Boa noite, amigo – me aproximei do segurança que estava muito elegante naquele terno negro. – Meu parceiro e eu estamos a fim de saber como o trem anda aí dentro.
- Anda nos trilhos, rapaz – respondeu secamente. – E se por acaso ele sair dos trilhos, meus amigos e eu estamos aqui para colocá-lo nos trilhos de novo.
- Certo, meu amigo – continuei após um logo suspiro. – Mas a gente tava querendo saber o que precisamos fazer para vermos algumas garotas sem calcinhas e sutiãs. Entendes?
- Durante a semana – respondeu ele mais seco do que nunca – temos os tradicionais shows de strip-tease a cada meio hora. Os shows no chuveiro e nas gaiolas também funcionam, menos às terças-feiras…
- E o que rola na terça-feira – interrompeu Isaías.
- Calma, moleque – aborreceu-se o já aborrecido segurança. – Eu ainda não tinha terminado de falar. Amanhã acontece o show de sexo ao vivo. A dançarina faz uma apresentação de abertura e depois desce do palco e saí procurando algum macho corajoso para subir no palco junto com para se divertirem na frente de toda a boate.     
- Caralho, meu! – exclamou Isaías. – Amanhã a gente tem que vim aqui, Álvares!
- Tragam suas identidades.
- Claro, mas me diga mais uma coisa, senhor  – falou Isaías.
- O quê?
- E as meninas… elas cobram quanto?
Isaías não tinha um centavo no bolso. Eu muito menos. Mas daríamos um jeito de arrumar alguma grana para estar ali na noite seguinte.
- Depende da conversa – informou o segurança. – Elas costumam pedir 50 paus de cara. Mas aí vocês entram com o preço de vocês. Sabendo conversar legal com elas, elas deixam até por 25 e 20 reais. Os quartos são 12 reais a hora e as cervejas 3 reais. A entrada também são 3 reais.
Eu tinha certeza de uma coisa naquela conversa ali: dificilmente eu comeria alguma puta ali.

 Eu havia apenas conseguido arrumar 5 reais. Isaías arrumou 10. Não havia de onde arrancarmos mais. E assim, Isaías e eu, apareceríamos pela primeira vez em nossas vidas na famosa Boate B Vermelho com apenas 15 reais. Contudo, 6 reais ficariam na porta.
De qualquer modo, fomos revistados na entrada. O mesmo segurança da noite anterior, com o mesmo terno da noite anterior e o mesmo mal-humor da noite anterior. Aquela revista parecia um assédio sexual. O cara só nos faltou chupar o pau. Mas antes, nossas carteiras de identidades foram examinadas minuciosamente. Era que ainda exalávamos adolescência.
 Entramos, por fim. Aquele lugar parecia muito maior do que eu havia imaginado. Sensacional!  Música ambiente, televisões espalhadas pelo lugar exibiam filmes pornôs. Mais adiante um palco de certa de três palmos de altura com uma longa barra de ferro posta na vertical bem ao centro no amplo palco em madeira.  A luz vermelha derramava-se em abundância sobre o palco, sobre a despida garota que deslizava lentamente naquela barra de ferro. Eu jamais havia sentido algo semelhante em toda minha vida. Clarice Lispector me havia feito sentir algo, mas perto daquilo a minha escritora favorita era apenas uma criança tentando cobrir as vogais na classe da professora Raimundinha.  Eterna noite breve, que inseriu em minha alma a grandeza do universo.
Bebemos nossas duas cervejas, fumamos alguns cigarros, mais por curiosidade e para nos fingirmos de durões, e pedimos um refrigerante para tirar o gosto amargo da nicotina de nossas bocas. Então foi tudo o que nosso dinheiro podia suportar. Estávamos completamente falidos. 


E as meninas continuavam a dançar no palco. Coreografias vertiginosamente promíscuas a nos arrebatar para além de nossos corpos excitados. E uma das garotas sentou-se na borda do palco, completamente nua, com as pernas abertas. Ela dava leve tapinhas em sua boceta, provocando a platéia a enfiar a língua ali. Um grupo de amigos estava com sua mesa junto ao palco. E ela continuava a bater e sua boceta raspada olhando para os rapazes da mesa colada ao palco. Uma morena de estatura baixa e cabelos graciosamente encaracolados. Bem feita de corpo e com um olhar de satã. Dois olhos negros cheios de abismos, que poderiam perder para sempre qualquer infeliz amante descuidado.
Então um dos rapazes, que bebia na mesa junto ao palco, foi levantado de sua cadeira a força por dois amigos. Havia muitas garrafas vazias sobre aquelas mesas. Os rapazes já iam muito altos na bebida, certamente. A menina continuava ali os provocando. E assim, o rapaz da mesa junto ao palco se ajoelha diante daquela imagem belíssima e cai de boca. Era como se ele quisesse devorar aquela boceta. Seus amigos se aproximaram e observaram o serviço da língua veloz e feroz do rapaz, e como que para querer deixar o que já é gostoso mais saboroso ainda, os miseráveis, despejaram cerveja em cima. E o rapaz bebia desesperadamente aquela singular mistura. Olhei para Isaías e temi que meu amigo viesse morrer do coração ali mesmo.
Depois disso, nossa morena desceu do palco. Mais nua do que veio ao mundo.  Dois cadeirantes a chamaram para junto de sua mesa. A bela morena, que já tinha garimpado algum trocado na mesa anterior, deslizou levemente até a mesa dos aposentados. Sem dúvida alguma ela tinha experiência. Era muito gostoso vê-la se esfregado naqueles homens em suas cadeiras de rodas. Talvez eu não passasse de um maldito voyeur.
Seja como for, um dos cadeirantes não estava satisfeito. Então ele mandou nossa morena dos cabelos encaracolados subir em sua mesa e ficar de quatro. A mesa dos aleijados estava cerca de meio metro de distância da nossa. Tínhamos uma visão privilegiada dali. Um dos cadeirantes ao ver a dançarina com aquela bela bunda arrebitada sobre sua mesa não contou conversa e cuidou de enfiar a língua naquele belo cu abençoado por deus. Enquanto que nas televisões o pornô eterno continuava indiferente a tudo e a todos.
E o show de sexo ao vivo ainda nem tinha começado. Seria a próxima atração.
A noite agora era madrugada. O show de sexo ao vivo começava dentro de alguns minutos. No palco, as dançarinas se revezando no doce ofício de arrebatar almas, enquanto meu pau permanecia insistentemente duro. Muitos homens começavam a chegar ao ambiente para o show tão esperado. Homens de todas as idades e tipos se acomodavam por ali. Todos pareciam bastante sérios e concentrados quando a Dama da Noite subiu sobre o palco.
- E com vocês, a maravilhosa Dama da Noite! – soou a voz do DJ pela caixa amplificada.
E lá estava ela vestindo alguma espécie de casaco preto, uma boina da mesma cor e os lábios carnudos mais visíveis e suculentos com aquele batom vermelho-sangue. Seus olhos e seus cabelos eram negros e insanos; sua pele era morena e seu corpo era como de elástico. Então seu casaco fora lançado ao chão, e o que nos foi revelado fora  uma minúscula tanga preta totalmente enfiada dentro daquela bunda grande, linda e gostosa. E a Dama da Noite andou rebolando aquela maravilhosa bunda pelo palco, dançou, subiu e desceu no poste. Todos se tornaram apreensivos assim que a garota desceu do palco. Meu parceiro Isaías cuidou de se esconder no banheiro, pois sabia que a Dama da Noite passaria por entre as mesas caçando sua presa impiedosamente para devorá-la encima daquele palco diante de todas as cuecas do recinto. Eu resolvi ficar sentando no meu canto, olhando para as duas garrafas de cervejas vazias e me perguntando se por acaso a Dama da Noite resolvesse vim até onde eu estava. Mas quando meus olhos voltaram a procurar aquela singular bunda pelo salão em meio às mesas e cuecas, acabei por encontrar dois olhos negros e insanos e hipnotizantes cravados nos meus olhos castanhos. Estava perdido. Por mais que eu tentasse não conseguia tirar meus olhos do dela. Hipnotizado, deslumbrado e cativo.
- Você tem a bunda mais bonita que eu já vi na vida – disse-lhe.
- É mesmo? – respondeu ela virando-se de costas para mim e arrebitando bem seu rabo em minha direção – Tu não queres experimentar ela ali no palco?
- Eu não conseguiria fazer com toda essa gente me olhando – respondi sem certeza.
Um sorriso irônico me foi dado como resposta. Ela tinha um sorriso bonito.
Depois ela se sentou sobre meu pau endurecido. Eu olhava para sua tanga minúscula devorada gulosamente por sua bunda, olhava para suas costas e depois para sua bunda inacreditável e me perguntava se tudo aquilo não passava de uma das minhas alucinações. Seria real a melhor bunda já nascida nessa cidade estar depositada sobre meu colo? Era como se tudo ao nosso redor tivesse sido removido. Só havia a Dama da Noite e eu. E ela remexeu sua bunda sobre meu pau, jogou-se um pouco para trás encostando a parte de trás de sua cabeça em meu ombro, depois virou um pouco seu rosto e enfiou sutilmente a língua dentro do meu ouvido esquerdo. Misericórdia! Meu pau estava para explodir e já me era possível sentir todos os demônios e deuses dentro de mim querendo se unir. Eu não queria que aquilo terminasse nunca.
- Vamos subir? – falou-me ela depois se erguendo e pegando-me pela mão.
Não havia o que questionar quanto a este assunto. Eu era a presa dela. Ela sabia disso, os machos que observavam tudo sabiam disso também. Não se podia nadar contra a correnteza.
- Hoje alguém vai perder o cabaço! – dizia, eufórico, o DJ filho da puta.
E o show começou. Eu era palhaço escolhido no meio da platéia e a Dama da Noite, a ilusionista. De repente, minhas calças e cueca estavam arriadas até os pés, enquanto a Dama da Noite, de joelhos à minha frente, devorava-me a caceta rígida. Depois ela puxou não sei de onde uma camisinha, a colocou entre seus lábios e a esticou sobre meu pau. Aquele truque parecia-me completamente genial. Como ela conseguia fazer aquilo? E assim ela seguiu chupando durante algum tempo quando subitamente parou e se pôs a caminhar até o poste no meio do palco.
Então a Dama da Noite ergueu uma de suas grossas pernas e a segurou assim erguida com uma das mãos, enquanto apoiava-se na outra e segurava-se no poste com a mão vaga. E estando ela nessa posição, chamou-me para junto de si. Eu a olhava de uma certa distância, em pé, o pau erguido e a bunda a mostra aos vários espectadores. Eu só conseguia pensar com a cabeça de baixo. Eu era um animal agindo apenas instintivamente. Aproximei-me e enfiei por trás. Ela arrebitou mais a bunda e eu segui bombando enquanto todos aqueles homens observavam e se masturbavam por debaixo das mesas.
- Deita! – ordenou-me ela depois.
Deitei. Ela montou e cavalgou gostoso. As luzes multicolores socavam minha face e o DJ vez ou outra comentava algo sobre a foda. A música derramava-se por todo o ambiente sem que ninguém nela prestasse atenção. Porém, eu acabei prestando atenção na melodia melosa e na letra romântica da música, enquanto a Dama da Noite rebolava com as palmas das mãos apoiadas sobre meu peitoral.  Foi aí que eu comecei desanimar. Lembrei do sorriso do grande amor da minha vida. Pensei em Regiane… Então tudo aquilo desmoronou, perdeu o sentido e o encanto. Eu era um fodido de um romântico. Olhei para o lado e vi os cadeirantes tomando suas cervejas com os olhos fixos naquela mulher e eu. Depois olhei para o outro lado e vi Isaías em pé na porta do banheiro e muitos outros homens mais de todos os tipos e formas. Todos olhando para o meu pau e meu rabo. Regiane ficava cada vez mais forte em meu pensamento.
As luzes seguiam em suas mesclas de cores, a música tocando, o DJ comentando e os cadeirantes me olhando… A angústia e o desespero começaram a tomar espaço dentro de mim. Então meu pau desabou. E Dama da Noite tentou, chupou, bateu uma punheta, bateu com a minha caceta em sua face, lambeu, beijou… Não haveria Dama da Noite alguma que pudesse reerguê-lo ali. A platéia se inquietou como é bastante normal quando um show não está agradando ou saindo conforme o script. Então alguém gritou da platéia:
- TIRA ESSE PAU-MOLE DAÍ!
E os outros engrossaram o coro. Houve vaias. O DJ ponderava:
- Não é fácil trepar assim, pessoal! O cara pelo menos teve coragem.
A Dama da Noite começou a provocar os machos da platéia para subir no palco junto com ela e finalizar o espetáculo. E ela apontou na direção do cara que me chamou de pau-mole.
- Sobe aqui se tu és macho – dizia ela a ele. – Eu quero foder com vocês dois. Vamos lá! Tu não és macho?
E os seus companheiros o empurravam na direção do palco. Ele tentava resistir, mas acabaria cedendo à pressão. Eu apenas ajuntava as minhas roupas do chão e tentava vesti-la o mais depressa possível. Dei uma olhada no salão tentando encontrar Isaías. Ele havia se mandado. Filho da puta, pensei. O encontrei do lado de fora, esperando-me numa esquina muito próxima do mercado de ferro do Ver-o-Peso.
- Cara, tu és muito doido! – falou-me Isaías a me ver.
E caminhamos comentando o caso até nossas casas.    


QUARTA-FEIRA, 2 DE FEVEREIRO DE 2011


Enquanto a garrafa durar





Era assim que as coisas corriam cotidianamente:
Eu de olhos grudados em um monitor de 14’ polegadas
enquanto os dedos trabalhavam em um teclado já avariado
devido minhas constantes digitações, as quais eu denominava egocentricamente de : criações. 
Eu era uma Piada com “P” maiúsculo mesmo. 
Eu devia estar num circo.   
Por que seguir tocando assim? Por que não desistir de uma vez por todas!?
Essa merda nem devia ter organizações em versos para que nem de longe viesse lembrar  um poema.
Um poema sem poesia. Eis tudo o que estas linhas são.
Walt Whitman esta grudado em minha parede, assim como em minha mente.
Eu olho para os papéis que reproduzem os versos do grande poeta.
Olho para o mapa político do meu Estado e para o mapa físico do território brasileiro, ambos grudados atrás de meu monitor, na parede frontal a mim.
A noite avança intrépida. Eu tento seguir levando.
A bebida não está boa, ou melhor, a mistura não está boa.
Mesmo assim, sigo emborcando ouvindo não apenas músicas em espanhol, mas músicas de todos os gêneros possíveis.
Agora ouço Rock n’ roll.
Sigo misturando tudo para alcançar particularidades.
Coisas autênticas e originais.
Eu não sei se as alcanço, mas isso é o que menos importa no momento.
A verdade é que eu só quero dizer o que de outra forma não pode ser dito.
Dito com palavras verbais, convencionais.
As palavras me fogem dos lábios continuamente.
E eu não sei como capturá-las…
O que resta é o medo, a timidez e o acanhamento.
As pessoas reunidas não me fazem bem.
E elas, individualmente, me parecem vazias, sem almas. 
Suas bocas falam coisas que não são coisas suas. 
Seus gestos, seus modos são coisas longínquas de si mesmas.
Sem falar de seus penteados, suas roupas, seus posicionamentos políticos e/ou religiosos.
Caralho, é tão difícil ser nós mesmos.
Por que tentar ser o que é num mundo onde ninguém é o que é?
Eu queria ser o que não sou para que desse modo pudesse ser, existir.
As coisas pareciam querer se restringir definidamente às garrafas.
Desligar o PC, tomar mais uma dose e largar-se na cama.
Havia alguma forma de escapar disso tudo?
As coisas melhorariam em breve.
O instinto de sobrevivência nos inclinava a pensar assim, naturalmente.      

Entre goles e frases a noite se eterniza



Havia algo que eu amava desesperadamente e desproporcionadamente nesta porcaria de vida. E era ouvir belas músicas em espanhol enchendo a cara de caipirinha ou vinho barato em meu espaço, enquanto meu mais novo teclado tentava suportar a fome alucinada de letras que meus apressados dedos imprimiam. Ali eu sozinho me encontrava. Eu e eu mesmo. A Noite, parceira, cuidava de se estender o suficiente para o meu deleite. Nada me era superior a sensação de escrever e beber ouvindo músicas em espanhol. Meu espírito vibrava e minha alma dançava. Eu podia ver anjos e beber vinho com Deus contando ao Todo-Poderoso alguns casos bizarros da natureza humana. Deus ria-se muito é claro. Afinal, ele não era humano, mas havia feito o que é humano e por isso ele ria da maior merda que Ele já tinha feito em sua eternidade. Deus era um cara bacana. Éramos nós que não prestávamos. E não havia estrelas, nem lua; não havia pessoas passando pela rua e nem boêmios gatos desfilando sua leveza e beleza por sobre os telhados e muros, pois entre goles e frases a noite se eternizava...  



O PRIMEIRO PORRE A GENTE NUNCA ESQUECE



No céu azul salpicado de nuvens brancas, o sol furioso do mês de julho. Verão amazônico. A cidade inteira dava um jeito de escapar. Os destinos eram os mais variados e logicamente dependeria do bolso de cada um. Só o que não valia era ficar em Belém torrando. É claro que haveria algumas pessoas que não teriam outra opção, mas escapariam nos finais de semana.
Na Ilha de Cotijuba em Belém, havia charretes e bondinhos, na verdade eram tratores puxando vagões confeccionados em latão, que muito de longe lembravam bondinhos propriamente ditos. No entanto, todos chamavam aquele transporte de bondinho. Na ilha havia muitas praias e muito verde. Um lugar fantástico para quem buscava paz e sossego. Meu primo Henrique e eu esperávamos o bondinho na fila. Estávamos querendo curtir a Praia do Vai-Quem-Quer, última praia da ilha. Na mochila iam dois pacotes de biscoitos de chocolate e uma garrafa de litro e meio de vinho barato.
A viagem de bondinho era lenta, devido às condições da estrada de terra. A paisagem nos enchia os olhos de vegetação tipicamente amazônica. Algumas casas à beira da estrada esburacada e muitos búfalos pastando. Os búfalos eram animais que transmitiam força e beleza.
- Alguém aqui sabe qual é o melhor amigo do homem? – perguntou um bêbado para todos.
Ninguém respondeu nada.
- Ora! É claro que é o boi. Porque o homem leva chifres, mas o boi carrega!
O bêbado além de ser um chute nos bagos ainda era metido à comediante.
E assim a viagem prossegue por entre a sombra das árvores e as piadas sem graça do bêbado. Mais casas, mais búfalos, árvores infinitas, bares, restaurantes, campos de futebol, uma estação elétrica a óleo diesel e placas indicando os nomes das praias antecedentes a Praia do Vai-Quem-Quer. Do lado oposto, outra placa indicava a entrada para as “Ruínas do Engenho”, antigo presídio do Estado conhecido por abrigar detentos que sofriam torturas até a morte.
Por fim, chegamos.
Seguimos por uma rua até praia. A maré estava cheia e as ondas estrondosas nas areias fofas da praia. O vento soprava impetuoso, mas você nem percebia. Tudo era tão harmonioso e exato. Até as músicas dos bares eram mantidas em um volume civilizado. Mas seria impossível para Henrique e eu sentarmos para consumir naqueles estabelecimentos. Éramos dois duros numa praia de preços altíssimos. Encontramos uma árvore de copa generosa e raízes acolhedoras, e ali nos alojamos. Abri a mochila e tirei a garrafa de vinho e tomei um bom gole. Henrique olhou-me, sorriu e correu para dentro das águas furiosas e cristalinas.
Com um pouco mais de 16 anos, estatura mediana e porte esbelto, Henrique tinha a pele clara, grandes olhos e cabelos castanhos. Um adolescente alegre e comunicativo a primeira vista. Um rapaz inteligente, de mente obstinada, mas um pouco preguiçoso. Naquela época ele era fã de rock’n roll, e queria aprender a tocar guitarra para ser tão bom e famoso quanto o guitarrista de sua banda favorita. Henrique era o filho mais velho do meu tio paterno.
Henrique saiu das águas, parou perto de mim, estendeu a mão direita em minha direção e disse de modo imperativo:
- Álvares, me passa um gole aí!
Henrique nunca havia tomado um porre na vida, mas ele continuasse dando goles daquela maneira, certamente, essa realidade seria mudada.
Então meu primo sentou-se ao meu lado em cima da raiz. E enquanto eu dava um gole, ele dava um que valia por cinco. Passaram-se alguns minutos, por certo, e ele estava rindo a toa e falando mais e mais alto do que o habitual. Depois ele começou a rolar de um lado para o outro na areia branquíssima para logo em seguida disparar para dentro da água. Eu corri atrás dele e mergulhei de cabeça naquele rio abençoado enquanto as ondas continuavam espocando na praia.
- Eu nunca me senti tão feliz e tão leve em toda a minha vida! – exclamou a todos os pulmões, meu primo Henrique.
Sim, ele já estava bêbado, e não havia mais vinho. Eu precisava ficar feliz também. Por sorte, ainda tínhamos cinco reais, que na verdade era para comprarmos alguma coisa para comermos. Mas quem poderia pensar em comer quando o que mais se queria era beber? Por isso, compramos outra garrafa de vinho vagabundo.
Mas quando a felicidade finalmente começou a operar dentro de mim, meu primo, começou a me contar de suas dores mais profundas. Logo depois ele começou a chorar. Chorou bastante me narrando entre soluços seus sentimentos em relação a seu pai João. Ele se sentia desprezado e mal-amado. Achava que seus pais gostavam mais de seu irmão do que dele. E tudo que ele fazia para agradar não era valorizado. Eram somente cobranças, críticas e injustiças.
- Ele nunca me falou: “filho eu te amo”. Uma vez tava passando um filme de um pai e um filho – reclamava-me Henrique com a face bastante vermelha de tanto chorar –, e o pai abraçava o filho e dizia que amava ele. Fiquei muito emocionado com a cena e olhei pro papai, mas ele se levantou do sofá e saiu da sala. Nunca vi um homem tão frio assim.
- Eh, - eu tentava apaziguava – calma, macho. Tio João te ama muito. Ama tu e o teu irmão, igualmente. Eu também te amo. Tu és um irmão pra mim. Só que o titio não é uma pessoa dada a sentimentalidades dessa forma, Henrique. Ele um homem durão e reservado em seus sentimentos. Escuta isso: quando se ama alguém de verdade é com os gestos e atitudes que se prova, e não com palavras melosas e frases sem originalidade. Tu tens que parar de ver mais estes filmes americanos, ou melhor, tu tens que parar mais de ver televisão.
Época difícil para qualquer um de nós. Quem já passou sabe. Qualquer coisinha vira um bicho de sete cabeças. Eu também já havia passado por essa fase. Fase que deixa feridas difíceis de curar.
Aconteceu de nós torrarmos nossas passagens de volta com mais uma garrafa de vinho. Resultado: aproveitamos que a maré estava vazando, e seguimos a pé pela praia por cerca de 9 kilometros em direção a Praia do Farol, que ficava no extremo oposto da Ilha de Cotijuba, para de lá caminharmos até a casa de minha mãe, onde estaria nos esperando já muito preocupada, minha irmã Vitória.
O sol morria dramaticamente no horizonte. Tão dramático e vermelho quanto a face de Henrique. Caminhávamos lado a lado por sobre as areias das praias que antecedem a Praia do Vai-Quem-Quer. Pernada doida, exaustiva para qualquer um, menos para Henrique e eu, que seguíamos flutuando numa outra áurea. E assim seguíamos em frente, bebendo daquele péssimo vinho, pois em semelhantes crepúsculos de gente e de dia tudo parece mais leve, mágico e maravilhoso.
Belém, julho de 2010.

Batidas na porta



Mais uma noite vencida. Sonhos vários, embora nenhum me viesse fazer sentido. Coisas de sonhos. Debatia-me de um lado para o outro da cama. O ventilador a berrar, o sol a aquecer minhas malditas telhas de amianto, ainda não era nem dez horas da manhã, e me era difícil continuar dormindo e sonhando. Então algumas batidas contínuas em minha porta de madeira.
Abro a janela, sonolento. Por certo só poderia ser meu amigo Daniel, em plena nove horas da manhã. Esfrego os olhos e o que vejo me enche de boas sensações. Sim, era Rebeca. E como ela estava maravilhosa com aquele jeans colado em sua esplendorosa bunda. Vôo imediatamente até a porta.
- Nossa! Quanto tempo... Que bom te ver novamente, Rebeca.
- Não vai me convidar pra entrar, Álvares?
- Sim! Entre!
E assim ela entrou. Depois nos abraçamos. Senti uma ereção imediata. Rebeca também sentiu algo crescendo rigidamente contra sua cintura estreita. Eu estava tomado de tesão e não queria me desgrudar daquele rabo abençoado. Então agarrei os cabelos longos e ondulados de Rebeca, avancei com determinação meus lábios aos fartos e rígidos seios dela. Eu era um bebê a mamar a sua própria subsistência. No entanto, eu queria mais.
E assim avançamos para minha cama e nos envolvemos inteiramente. Rebeca era incrível. Não havia camisinhas que agüentassem intactas dentro dela. Sua boceta dissolvia e misturava tudo e a todos, dentro dela, éramos e não éramos simultaneamente. Seu cheiro, o calor de seu corpo, seus beijos famintos, seus olhos escuros que nos levavam aos mais claros e límpidos cenários e aquela sua maneira de morder sutilmente o lábio inferior...
Rebeca...
E ela vai por baixo e por cima, de lado e de quatro. Rebeca conhecia todos os caminhos pelo simples fato de que todos os caminhos pertenciam a ela.
E ela se vai porta a fora. Não me permite que a acompanhe até o ponto de ônibus. Eu só queria que ela me quisesse em tempo integral. Mas Rebeca conhece-me o suficiente para não cometer tal equivoco.
E assim ela vai e eu fico.

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